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Vade Mecum Espírita
Therezinha de Oliveira

Parábolas Que Jesus Contou e valem para sempre - Nota 10

Therezinha de Oliveira

Uma jóia rara de André Luiz


12
Julgamento e amor
 
          Transcorridas algumas semanas, Ernesto e Evelina achavam-se menos bisonhos no ambiente.
          Conquanto as afeições que prosseguiam entesourando, sentiam-se cada vez mais vinculados um ao outro. Sensivelmente melhorados, demoravam-se ainda no hospital, mas domiciliados em pavilhões de convalescentes, cada qual no departamento próprio, de vez que as referidas construções abrigavam homens e mulheres, em vasta agremiação de lares-apartamentos para uso individual. Desfrutavam a devida permissão para se movimentarem na cidade, como quisessem, apenas com a observação de que somente lhes seria lícito visitar os arredores, onde se acomodavam milhares de Espíritos infelizes, com assistência adequada.
          Efetivamente os dois começavam a experimentar necessidade de serviço disciplinado e regular, mas, se pediam trabalho ou qualquer atividade no antigo lar terrestre que ainda não haviam logrado rever, as respostas da autoridade competente eram ainda invariáveis. Que aguardassem mais tempo, que seria justo atender à imprescindível preparação. À vista disso, frequentavam bibliotecas, jardins, instituições e entretenimentos diversos, figurando-se lhes a vida, ali, uma fase longa de repouso mental em tranquila colônia de férias. Chegara porém, o dia em que Evelina realizaria um dos seus maiores anelos naquele ninho de bênçãos. “Fantini prometera conduzi-la, com o preciso consentimento dos benfeitores, a um templo religioso para assistirem ao ofício da noite que se constituiria de uma pregação sob o título Julgamento e Amor», previamente anunciada.
 
Ambos ardiam em curiosidade, porquanto ansiavam conhecer de perto como se processavam as criações religiosas, naquele mundo para eles extremamente belo e novo.
          À noitinha, puseram-se em marcha.
          A senhora Serpa recordava em caminho as visitas de outro tempo ao santuário de sua fé e albergava no coração as mais doces reminiscências...
          Sensibilizada, monologava intimamente: « como perdera o convívio dos entes mais caros e porque se apoiava, ali, no braço de um homem que vira na Terra tão-somente uma vez?”.”.»
          Em torno, o vento brando carreava o perfume de jardins e praças em flor.
          A Lua, a erguer-se do horizonte, era o mesmo espetáculo de majestade e beleza a que se acostumara no mundo...
          De quando em quando, permutava com Fantini uma que outra frase, observando que outros ranchos simpáticos caminhavam na mesma direção.
          Transcorridos alguns minutos de alegre peregrinar, ei-los diante do templo que primava pela simplicidade, figurando-se enorme pombal edificado com franjas de neve translúcida, defendido, aqui e ali, por densas faixas de arvoredo.
          No interior, tudo espontaneidade e harmonia.
          A fila extensa de bancos deixava ver o púlpito à frente, que assumia a feição de enorme liliácea, esculpida em mármore alvíssimo.
          Na parede muito branca, diante da assistência, sob as legendas “Templo da Nova Revelação”, “Casa Consagrada ao Culto de Nosso Senhor Jesus-Cristo», ao invés de quaisquer símbolos ou esculturas, jazia apenas uma tela, recordando o semblante presumível do Divino Mestre, cujos olhos na excelsa pintura pareciam falar de vida e onipresença.
          Sentada com Fantini, lado a lado, a senhora Serpa fitou os rostos, serenos uns e ansiosos outros, que os cercavam em profundo silêncio, e mergulhou o coração em prece muda.
          Em dado instante, qual se se materializasse inesperadamente na tribuna ou até ali fosse ter, através de porta oculta à observação do auditório, um homem, envergando túnica lirial, surgiu e saudou a assembleia, reverente.
          Logo após, dirigiu-se para o Alto e, em oração comovedora, rogou as bênçãos de Jesus para os ouvintes expectantes.
          De seguida, aproximou-se de grande exemplar do Novo Testamento, aberto sobre delicado porta-livros e leu os versículos números 1 a 4, do capitulo sete do Evangelho do Apóstolo Mateus:
                                        «Não julgueis para não serdes julgados, pois, com o critério com                                                              
                               que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos                      
                               medirão também.
                                         Porque vês tu o argueiro no olho de teu irmão, sem notares, porém, a trave
                               que está no teu próprio? Ou, como dirás a teu irmão: «deixa-me tirar o argueiro
                               do teu olho, quando tens a trave no teu?»
          Terminada a leitura, deteve-se o ministro em dilatada concentração, qual se buscasse inspiração nas profundezas da própria alma.
          Ernesto e Evelina, porém, viram surpresos, que, ao revés, o pensamento dele se exteriorizava, em forma de larga auréola de luz, que se lhe alteava da cabeça, à maneira de chama, elevando-se cada vez mais...
          A curto espaço de segundos, clarões jorravam de cima, lembrando as chamadas línguas de fogo do dia de Pentecostes, e o sacerdote simpático iniciou a pregação de que respigaremos apenas alguns trechos que lhe definem a tessitura de sabedoria e beleza:
          — Irmãos, até ontem éramos parte integrante da coletividade humana — a nossa bendita família da retaguarda — e acreditávamos no poder de julgar-nos uns aos outros. Encastelados nas ideias religiosas que supúnhamos escravizar a serviço de nossas paixões, imaginávamos adversários e transviados quantos não pensassem por nossos princípios.
          Interpretávamos os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus-Cristo, conforme o nosso arbítrio, exigindo que o Senhor da Vida se nos fizesse rebaixado servidor, na estrada sombria e tortuosa que não nos cansávamos de palmilhar; entretanto, despojados hoje do corpo de matéria mais densa que nos acalentava as ilusões, aprendemos que todos somos consciências deficitárias perante a Lei. E compreendemos agora, para felicidade nossa, que apenas o Senhor dispõe de recursos para avaliar-nos consideradamente, porque, em verdade, ser-nos-á possível tão-somente examinar a nós próprios.
          O que tenhamos sido no imo do sentimento, enquanto na existência do corpo terrestre, somos aqui.
          Neste pouso de luz que o Senhor nos faculta por moradia temporária, percebemos, sem qualquer constrangimento de ordem exterior, que todos os petrechos mantenedores das aparências que nos disfarçavam no mundo, para o desempenho do papel que nos cabia na ribalta humana, nos foram retirados, a fim de que sejamos aqui, na esfera da realidade espiritual, quem nos propusemos ser, com tudo o que tenhamos ajuntado em nós de bem ou de mal, durante o estágio na escola física!...
          Muitos de vós outros carregais ainda hábitos e enganos da experiência carnal que, gradativamente, perdereis por não encontrarem neste meio qualquer significação...
          Vossos palácios ou casebres, títulos convencionais ou qualificações pejorativas, privilégios ou cativeiros, honras familiares ou desconsiderações públicas, vantagens ou prejuízos de superfície, todos os condicionamentos mentais que vos centralizavam na ideia de direitos supostos ou imaginárias reclamações, com o abandono dos deveres naturais de aperfeiçoamento espiritual para a vida eterna, desapareceram no dia em que os homens, por força da desencarnação, vos impuseram ao nome um atestado de óbito no Planeta, senhoreando-vos os patrimônios e analisando-vos os atos, para, ao depois, muitos deles, varrer-vos do pensamento, com a falsa convicção de que vos podem desterrar da memória para sempre!...
          Quantos de vós viestes escutar aqui as vozes da verdade para as quais tantas vezes selastes os ouvidos do corpo terreno?
          A Divina Providência não pergunta o que fostes, porque nos conhece a cada um em qualquer tempo... Entretanto, é justo investigue sobre o que fizestes dos tesouros do tempo, concedido a nós todos em parcelas iguais...
          Sábios, em que aplicastes os dotes do conhecimento superior? Ignorantes, onde colocáveis o talento das horas? Ricos, em que trabalho dignificastes o dinheiro? Irmãos destituídos de reservas douradas, mas tanta vez detentores de bênçãos maiores, que realizastes com as oportunidades de paciência e serviço, compreensão e humildade na esfera da obediência?  Jovens, que operastes com a força? Companheiros encanecidos na marcha do cotidiano, em que boas obras convertestes o clarão de vosso entendimento?
          Não vos iludais!...
          Qual ocorreu a nós outros, os que habitamos atualmente o Plano Espiritual desde longas décadas, trouxeram para cá o que efetuastes de vós mesmos... Aprendestes o que estudastes, mostrais o que fizestes, entesourais o que distribuístes!...
          Em suma, atravessada a Grande Fronteira, somos simplesmente o que somos!
          Reconhecereis, assim, no curso do dia-a-dia, neste domicílio das realidades excelsas, que todos os disfarces que nos encobriam a individualidade real no mundo se extinguem naturalmente, expondo-nos à vista a esfera íntima.
          Fora das constrições carnais, cada espírito se revela por si.
          Mecanicamente, na residência ancestral da alma, estampamos nas atitudes e palavras os sentimentos e pensamentos que nos são peculiares, sem que nos seja mais possível qualquer recurso à simulação.
          Patenteando de todo o que somos e o que temos, nos recessos do ser, terá chegado para cada um de nós a hora do julgamento, porquanto a Divina Misericórdia do Senhor nos oferece ainda, aqui como em tantas outras estâncias da Espiritualidade, esta cidade lar, como sendo antecâmara de estudo e serviço, possibilitando-nos valiosos aprestos para a ascensão à Vida
Maior, em cujas províncias nos aplicaremos à conquista de dons inefáveis, na continuação da luta bendita pelo aperfeiçoamento próprio.
          Quantos, porém, desprezarem as sublimes oportunidades do tempo, no clima de recomposição a que nos acolhemos agora, decerto que, por eles mesmos, recuarão para os distritos vizinhos, onde se afinam os agentes da perturbação e das trevas — doentes voluntários, seviciando-se, em lamentável regime de reciprocidade — até que, fatigados de rebeldia, roguem à piedade das Leis Eternas a preciosa dádiva das reencarnações de sofrimento regenerativo para o retorno a estes sítios, Deus sabe quando!...
          Não aspiramos a dizer com as nossas afirmativas que o renascimento no campo físico seja sempre cadinho de reparação aos delitos que praticamos, pois milhares de companheiros, depois de longo e honesto esforço pela própria corrigenda, entre nós, com larga quota de tempo em nossa colônia de trabalho e reforma, volvem ao corpo carnal, honrados com tarefas de abnegação e heroísmo obscuro, junto de alguém ou ao lado de grupos afins, granjeando, em louvável anonimato, concessões e vitórias dignas de apreço que, apesar de permanecerem quase sempre ignoradas pelos homens, se lhes erigem, aqui, em passaportes de libertação e acrisolamento para as Esferas Superiores!...
          Ante a pausa que surgiu espontânea nos lábios do orador que se aureolava de intensa luz, Evelina e Ernesto se entreolharam e, em seguida, através de ligeira mirada sobre os circunstantes, notaram que dezenas de rostos se banhavam de lágrimas.
          — Irmãos — continuou o ministro —, não vos sintais num tribunal de justiça, quando nos achamos numa casa de fé!... Mãe amorosa dos nossos impulsos de melhoria e sublimação, diz-nos a fé, neste recanto operoso e tranquilo, que não obstante desencarnados é preciso reconhecermos que as nossas ocasiões de trabalho e progresso, retificação e aprendizagem não chegaram a termo!...
          Aceitemo-nos quais somos, reconheçamos o montante de nossas dívidas e coloquemos mãos fiéis no arado do serviço ao próximo, sem olhar para trás... A cidade que nos reúne está repleta de instituições beneméritas com as portas descerradas ao voluntariado de quantos queiram colaborar no socorro aos que chegam até nós, em posição de angústia ou necessidade, todos os dias... Na Crosta Planetária, onde as criaturas irmãs da retaguarda travam dura batalha de evolução, entes queridos, ainda encarnados, exigem-nos os mais entranhados testemunhos de ternura humana, através do concurso espiritual que lhes possamos administrar, nos domínios da compreensão e do amor, a fim de que continuem a viver na experiência terrestre que lhes é necessária, tranquilos e felizes, sem nós... Todo um apostolado de renúncia construtiva, abnegação, carinho e entendimento se descortinam para a maioria de vós outros, no lar terrestre, onde quase todos estais ainda vinculados de pensamento e coração!...
          Além disso, estamos cercados, através de quase todos os flancos, por multidões de companheiros dementados, a nos pedirem amor e paciência para que se refaçam!... Na arena física, multiplicávamos apelos a que se pusessem mesas dedicadas aos famintos e se acumulassem agasalhos para o socorro à nudez... Aqui, somos desafiados à formação e sustentação do devotamento e da tolerância, para que a harmonia e a compreensão se estabeleçam na alma sofrida e conturbada dos nossos irmãos tresmalhados nas sombras de espírito.
          Caridade, meus irmãos!... Amor para com o próximo!...
          Muitas vezes, o serviço de alguns dias pode endossar-nos valioso empréstimo de energias e meios para as empresas de recuperação e elevação que nos requisitam o esforço de muitos anos.
          Oremos, suplicando ao Senhor nos inspire, a fim de que venhamos a escolher decididamente a estrada de purificação em novos e benditos avatares na estância física, ou a vereda ascendente para a Vida Maior!...
          Calou-se o sacerdote em prece muda.
          Do teto pendiam estrias de safirina luz, quais pétalas minúsculas que se desfaziam ao tocar a cabeça dos presentes, ou desapareciam, de leve, atingindo o chão.
          Dir-se-ia que no peito do ministro, em profunda concentração mental, se inflamara uma estrela de prata translúcida, de cujo centro se irradiava, docemente, toda uma chuva de raios liriais, inundando o salão.
          Fantini estava comovido, mas Evelina, qual sucedia a muitos dos companheiros ali congregados, não conseguia jugular o pranto que lhe vinha em onda crescente do coração aos olhos.
          A senhora Serpa não saberia explicar a razão da emotividade que lhe assaltara os recessos do espírito, extremamente sensibilizada como se achava, ignorando se devia aquelas abençoadas lágrimas às aspirações para o Céu ou às saudades da Terra... Não mais ouviu as derradeiras palavras do ministro, ao encerrar o ofício da noite. Sabia apenas que se amparava agora de maneira total no braço do amigo, junto de quem se retirou do recinto, soluçando...
Autor: André Luiz
Fonte: E a Vida Continua
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