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Vade Mecum Espírita
Therezinha de Oliveira

Parábolas Que Jesus Contou e valem para sempre - Nota 10

Therezinha de Oliveira

Estudo sobre obsessões


 
          Paz e Amor! Diante da grande responsabilidade que assumimos para com o nosso Criador, quando nos comprometemos a defender a Doutrina do seu amado Filho, selada com o seu próprio sangue no cimo do Calvário, para redimir as culpas dos homens; diante dos compromissos tomados pelo nosso próprio Espírito, certo então de triunfar da carne e suas paixões; de estabelecer na Terra o reino do amor e da fraternidade das criaturas; em face das lutas que crescem dia a dia, mais escabroso tornando o caminho da vossa existência em via de regeneração, elevo o meu pensamento ao Ser dos Seres, ao nosso Criador e Pai, e suplico, em nome da caridade divina, que se estendam as asas do seu amado Filho sobre a Terra, colocando-vos à sombra do seu Evangelho — garantia única da vossa crença — segura estabilidade da vossa fé!
          Amigos! Ainda há pouco, atravessando com os olhos do Espírito o reinado das trevas, raciocinando sobre os fatos que atormentam a Humanidade constantemente, reconhecíeis a necessidade do perdão das ofensas, de pagar com benefícios os malefícios, de responder ao ódio com o amor, reconhecíeis a necessidade que o homem, revestido de um Mandatum tão santo sobre a Terra, tem da virtude e dos altos sentimentos que o nobilitem aos olhos do seu Criador para, desassombrado, empenhar-se na tremenda luta da Luz contra as trevas, em nome do Cristo — o Mestre, o Modelo, o Redentor.
          Com efeito, louco seria aquele que, reconhecendo nos sofrimentos alheios a plena execução da justiça de um Deus clemente e misericordioso, tentasse apaziguá-los apenas com palavras — senão vazias de sentido —baldas completamente do sentimento cristão.
          Louco seria quem, sem as armas que lhe dão as palavras de Jesus, se entregasse a essa luta inglória, agravando — quem sabe! Os sofrimentos e as dores daqueles por quem se dispõe a lutar.
          Compreendeis que vos falo dos obsessos, desses infelizes irmãos que encontrais a todo o momento e que despertam a vossa curiosidade ou os vossos sentimentos. Falo dessas vítimas de erros e faltas que escapam à vossa percepção e aos quais, olhando-os com olhos piedosos, procurais ministrar a palavra consoladora — o bálsamo santo da caridade divina.
          Se fora possível, a todos os que estremecem diante desses quadros horrorosos, praticar o jejum de que falava Jesus aos seus apóstolos; se fora possível a cada um compreender o papel de verdadeiro sacerdote, de que se acha incumbido, quando procura repartir a hóstia sagrada, no altar de Jesus, com seus irmãos da Terra; se fora possível a elevação de vistas sobre estes fatos, em que a justiça de Deus se manifesta e, quiçá, o próprio arrependimento daquele cujo sofrimento tanto comove, certamente a tristeza não invadiria a vossa alma, a desilusão não perturbaria a vossa crença, a dor não dominaria os impulsos da vossa fé!
          Quereis os fins, procurai os meios. Os fins que visais são bons, empregai os bons meios — compreendendo sempre, constantemente, que Deus vela sobre todas as suas criaturas e que até os cabelos de cada uma estão contados.
          Compreendei o que quer dizer — Misericórdia; compreendei o que quer dizer — Justiça!
          Não entra nas questões altamente divinas que essas duas palavras encerram, isso a que chamais na Terra — boa-vontade, assim mesmo desmentida, muitas vezes, pela direção que dais aos vossos atos e às vossas ações.
          Compreendei a imutabilidade da lei de Deus; ela pode ter a sua execução sustada, mas nunca revogada.
          A execução é sustada quando — não a boa-vontade, mas o amor de suas criaturas, os eflúvios santos da caridade lhe sobem nas asas de uma prece e vão chorar junto do seu poder misericordioso. Então, ele apazigua os sofrimentos temporariamente, por isso que o princípio da justiça prevalece sempre, distribuindo a cada um segundo as suas obras.
          Compete, pois, ao verdadeiro espírita, ao verdadeiro imitador de Jesus, munir-se dos meios santos e puros para chegar a fins tão divinos e tão sagrados. Fazer por merecer — eis a grande questão!
          Deus é bom; procuremos, ao menos, não ser maus. Deus é a misericórdia; procuremos, na medida das nossas forças, repartir com os nossos semelhantes — não os lodos da alma, que desbotam os sentimentos — mas o amor que bebemos no grande Jordão do Evangelho, lavando-nos de culpas e de erros do passado. Humildes, caridosos, vereis claro o vosso rumo; podereis, como o disse Jesus, levantar os paralíticos, dar vista aos cegos, quais os Apóstolos que não limitavam o seu amor ao Mestre só à boa-vontade, mas o estendiam à prática das boas ações.
          Humildes e caridosos, não caireis nos barrancos com aqueles que conduzirdes pela mão. Humildes e caridosos, podereis trancar a casa varrida e ornada, derrotando as potestades malévolas que hoje vos intimidam, porque (infelizes que sois!), de posse do Evangelho, vos encontrais sem forças!
          Sim! Invoquemos com amor a graça de Jesus, supliquemos com humildade a misericórdia de Deus, para que, de posse do Evangelho, recebamos a sua força — possamos dar batalha a todos os sentimentos que não falem do seu nome, propagar pelo exemplo a sua palavra, único meio de chegarmos ao nosso desiderato sem agravar a responsabilidade, que porventura atualmente pese sobre cada um de nós, na distribuição da sua doutrina.
          Invoquemos o seu amor para que tenhamos força no coração e luz na inteligência, para que nos esclareça os ditames da consciência no terreno calmo e sereno onde o Espírito vai, segundo a sua palavra, fecundando as boas sementes pelo trabalho contínuo das ações, com a enxada das virtudes.
          Procuremos por essa graça, que invocamos, dar o justo valor ao sentimento a que chamamos caridade — chave com que abrimos as portas do céu —, isto é: chave com que alcançamos a paz da consciência, o templo do amor, o sacrário da justiça, o tabernáculo da fé!
          Procuremos dar justo valor a esse sentimento, que talvez profanemos, consciente ou inconscientemente, e com a profanação do qual perturbamos a paz, a serenidade da justiça, que se cumpre — não pela vontade dos homens, mas — pela vontade de Deus, de acordo com a lei que, emanada da sua sabedoria e do seu amor nunca desmentidos, distribui a cada um segundo as suas obras.
          Perguntemos a nós mesmos, para que a nossa consciência responda, se a caridade, essa virtude divina, exclui porventura a prudência, a razão, quando sabemos previamente que tudo tem sempre uma razão de ser, que tudo se faz pela vontade de Deus!
          Perguntemos a nós mesmos, sempre que o sentimento da filantropia, que se aninha em nosso ser e que supomos ser o da caridade, nos permite momentos de meditação, sugerindo-nos considerações sociais e pessoais, modelando mesmo os corações nos estreitos moldes dos prejuízos do mundo, sempre que aquele sentimento não receba de nós e espontaneamente os impulsos da fé, os alentos da esperança e a certeza de que é caridade o que se quer realizar; perguntemos a nós mesmos se há em nosso íntimo sentimentos tão grandes e tão divinos que possam suplantar o amor de Deus às criaturas!
          Perguntemos à nossa razão e à nossa inteligência se acima das nossas cabeças, onde fermentam, às vezes, idéias bastante pecaminosas, existe um véu tão denso e tão impenetrável que não possa ser atravessado pelos olhos de Deus, que tudo vê, tudo sente!
          Meus amigos! Chamo bastante a vossa atenção para esta passagem da minha pálida comunicação, falando-vos da caridade em face das obsessões. Chamo a vossa atenção, porque quero deixar firmado um princípio relativo às vossas condições, a fim de vos poupar desgostos e, talvez, revoltas, quando, sem saberdes dar o verdadeiro peso às inconseqüências dos vossos atos, às imprudências das vossas ações — permiti que vos fale assim — pretendeis chegar a grandes fins, usando de limitados meios.
          Não vos proíbo — e seria uma aberração do meu Espírito proibir-vos — tratar de obsessões. Notai bem! O que condeno, se condenar possa alguma coisa em nome da Doutrina, é que, a pretexto de caridade, caridade geralmente falada e poucas vezes sentida — vos exponhas a conflitos com o espírito das trevas, perturbeis a justiça de Deus que se realiza nos vossos semelhantes e agraveis, por conseqüência, a responsabilidade do vosso
Espírito, por isso que muitas vezes, nesses tentames, longe de distribuirdes os sazonados frutos do Evangelho, distribuis os agudos espinhos da dor e do martírio!
          A caridade que exclui a razão, a prudência e o bom senso — a verdadeira caridade — é instintiva!
          Não argumentemos com ela. Essa caridade constitui a poderosa força da alma, que já não conhece restrições no infinito.
          Não argumentemos com ela, que, sendo a verdadeira caridade, não discute conosco. Pela sua pureza, paira numa região que não podemos ainda tocar. Ela se orvalha da Misericórdia Divina, participa do bafejo do Criador, é grande, é imensa, não podemos medi-la.
          Mas a caridade que obriga o Espírito a cogitar dos meios, a caridade que discute, que atende a considerações sociais e prejuízos, essa caridade — antes sentimento filantrópico — precisa ser analisada, precisa ser medida para servir de norma à nossa conduta sobre a Terra, na distribuição das palavras do Evangelho, na depuração dos vossos Espíritos, até que possais chegar ao fim, ao desejado porto, que é Jesus — nosso Mestre e nosso amigo.
          É imprescindível o estudo do obsesso, em quem vamos operar o trabalho que nos reclama a filantropia do coração: — estudo fisiológico e patológico, estudo das causas determinantes dos sofrimentos que nos comovem; estudo do meio em que vamos atuar; dos sentimentos religiosos daquele a quem pretendemos curar; das suas qualidades morais; dos seus princípios; da sua educação, do tempo, de tudo, finalmente, que possa concorrer para nossa orientação no trabalho que pretendemos fazer. Nesse estudo sério, seguro, é que podemos encontrar o fio de Ariadne que nos guiará na obra de salvação do infeliz irmão, ovelha desgarrada, na frase do Evangelho — para a qual seremos o pastor, mas com os sentimentos do pastor.
          A palavra só deve entrar na casa do obsesso como coisa secundária; o que lhe devemos levar são sentimentos, são qualidades morais que se imponham: — a fé do verdadeiro Levita, a seriedade do verdadeiro
Sacerdote!
          E não há fugir desse pensamento, e não há fugir desse princípio, quando a razão nos diz que vamos colocar-nos entre a justiça de Deus e um infeliz — que vamos colocar o nosso coração como ante mural à vontade do Eterno, que tudo vê, tudo sente.
          Não há fugir dessa doutrina, quando sabemos que de Deus são completamente desconhecidas as fórmulas da boa-vontade e que nos seus domínios só pode penetrar o espírito da fé.
          Curar! Quem não procura curar? Suavizar os sofrimentos alheios, participar as dores dos seus semelhantes, beber no cálice das suas amarguras; quem não o procura fazer?
          Todos quantos têm o sentimento cristão — todos os que não pulverizam os sentimentos do amor, inato no coração das criaturas e aí colocado pela mão de Deus!
          Mas, que todos se revejam no Mestre; — que todos se lembrem de suas palavras quando, procurado pelos enfermos e obcecados, do corpo e do espírito, lhes dizia não convir que se curassem, porque não convinha, na linguagem do Espírito, fossem agravar suas responsabilidades, fazendo mal uso de uma graça recebida. Ainda mais: — não convinha se curassem porque necessitavam das provações e das expiações para se elevarem aos pés de Deus, o que não conseguiriam com a saúde do corpo, mas, sim, com a saúde do Espírito.
          Amigos! Deixo-vos, para repouso do aparelho que me serve, e não continuarei enquanto não me honrardes, solicitando o meu concurso para o vosso estudo. Rogo-vos, como verdadeiro amigo, me interrogueis sobre os pontos que porventura não puderdes aceitar, para que eu, com os elementos de que disponha no vosso médium, me faça melhor compreender, ou seja por vós esclarecido.
 
          Sinto-me bem no meio de amigos que procuram comigo investigar a verdade necessária ao progresso da Humanidade, e isso sem os preconceitos e os prejuízos que desvirtuam um estudo que deve ser feito com humildade e verdadeiro interesse.
          Da comunicação apresentada ao vosso estudo crítico, procuremos tirar as necessárias premissas e suas conseqüências imediatas.
          Deixando de parte a forma, que nada interessa à questão de que tratamos, vejamos o que podemos encontrar no fundo, que aproveite aos nossos Espíritos ávidos de luz e de novos conhecimentos.
          Primeira questão: — Deve o espírita tentar a cura de obsessões, quando sabe previamente que tudo tem a sua razão de ser — que tudo é feito pela vontade de Deus — e que até os cabelos da cabeça de cada um estão contados?
          Responderei, como regra absoluta: Sim!
          Segunda questão: — Pode o espírita, cônscio da sua fraqueza, da deficiência da sua força moral, ir ao encontro dos obsessos, procurando salvá-los da perseguição, da dor e do sofrimento que os comovem?
          Ainda respondo: — Sim! — também como regra absoluta.
          Terceira questão: — Mas deve o espírita, levado tão-somente pelo conhecimento que tem da Doutrina e pela esperança da graça que há de receber, tentar a cura, desprezando os meios aconselhados?
          Não!
          E isso, meus amigos, pela simples razão de não ser admissível colocar-se à cabeceira de um enfermo um médico que ignore completamente a Medicina!
          De igual modo que o médico, que trata do corpo, não cura apenas com a sua boa-vontade, mas procura os meios terapêuticas para combater a enfermidade denunciada pelo estado patológico do enfermo, assim o espírita, médico que deve ser da alma, tem que procurar os meios adequados à higiene da alma para curá-la, debelando as causas determinantes do mal que o entristece e lhe desperta a vontade de praticar o bem.
          Admitir que do simples encontro de um espírita com um obsesso pudesse resultar o afastamento do algoz e a garantia da vítima, fora admitir um capricho da Divindade, suscetível de ser desfeito ao primeiro gesto humano.
          Mas, se Deus é justo, se Deus é misericordioso e se ninguém o pode exceder em sentimento de caridade, compreendereis a impossibilidade de qualquer tentativa nesse sentido; compreendereis, ainda mais, a responsabilidade que advém, para o vosso Espírito, da profanação das coisas santas, sujeitas à justiça de Deus!
          Falando do sentimento que muitas vezes vos faz estremecer a alma e que supondes ser o da caridade, por isso que não podeis ainda compreender a grandeza e a santidade deste sentimento, deixei perceber a todos vós que melhor seria lhe chamássemos sentimento filantrópico, sentimento este que, não sendo a caridade, mas o seu princípio a desabrochar no vosso Espírito, não vos inibe contudo, de tratar dos vossos irmãos vítimas de obsessões, desde que, com prudência, com critério e com a razão, saibais dar direção aos vossos atos de filantropia, exercitando assim o vosso Espírito na prática do bem, proporcionando-lhe dia a dia novas forças e novas luzes para o seu alevantamento moral, e para o progresso da Doutrina.
          Quando o espírita tem fé, mas fé sentida; quando o espírita tem amor, mas amor esclarecido; quando o espírita tem caridade, mas a caridade provada, vai, sem cogitações estranhas, ao encontro dos que sofrem e, a exemplo do Mestre e dos Apóstolos, expele os demônios, dá vista aos cegos e faz andar os paralíticos.
          Quando, porém, o espírita apenas por tradição conhece esses sentimentos; quando é o primeiro a ter consciência da fraqueza de sua alma para se fazer de antemural entre a justiça de Deus e o sofrimento do seu semelhante; quando, apesar de tudo isso, aspira — o que é muito natural —, deseja — o que é nobre — chegar à condição daquele que possui os grandes sentimentos da alma, o espírita não pode deixar de ser prudente, criterioso e sensato, procurando os meios de suprir os sentimentos que lhe faltem na alma, a fim de desempenhar o seu dever de cristão e de espírita.
          É neste ponto que intervém o estudo fisiológico e patológico das causas determinantes do sofrimento, o estudo do meio onde se vai agir, do tempo, de tudo, finalmente, que respeita ao trabalho que se tem de fazer.
          O espírita, diante do obsesso, está diante do desconhecido, e, de igual modo que nenhum homem se aventura a explorar certa zona desconhecida, sem fazer o necessário reconhecimento para caminhar com desassombro e abrir a sua estrada, assim também esse estudo patológico das causas determinantes do sofrimento constitui o reconhecimento necessário ao trabalho que se vai tentar, por isso que nele se encontram os elementos substitutivos da fé que opera a remoção das montanhas — do amor que faz a unificação das almas — da caridade que se distende por todo o infinito!
          Princípio invariável: — Em todos os casos de obsessão há sempre um estado mórbido a combater — estado mórbido esse que é causa ou efeito.
          Sendo assim, o estudo fisiológico é imprescindível, meus amigos, os meios terapêuticas são mais que necessários, por isso que se trata de entrar num jogo — se assim me posso exprimir — de desequilíbrio de órgãos desmantelados pela absorção de fluidos que têm alterado a economia peculiar a cada ser.
          Restabelecer os órgãos, trazê-los às funções normais, é um trabalho tanto mais necessário quanto sabemos que, às vezes, a sua desorganização é que permite o estabelecimento do laço entre o obsessor e o obsesso. Isso quanto à parte fisiológica.
          Quanto à parte moral, porque o vosso fito seja restabelecer o obsidiado, não podeis, contudo, abandonar o obsessor que tendes diante de vós e que, por mau, nem por isso deixa de ser vosso irmão e de estar debaixo da misericórdia de Deus. Por convir sejam concomitantes as curas de ambos, é que se torna impossível, simplesmente pela boa-vontade, obter a graça que muitas vezes ides invocar da misericórdia e do amor do Altíssimo.
          Sem dúvida, Deus, na sua sabedoria e vontade, pode, num dado momento, afugentar todas as legiões de maus Espíritos. Mas, se Deus não quer a morte do pecador e sim que ele se salve, Deus não permite que, pela simples evocação do seu nome, se restabeleça um que precisa sofrer e expiar faltas cometidas, e se lancem às trevas, ao desespero, outros, que também são filhos e que se não o amam é porque o não conhecem!
          Assim, pois, o bem deve ser feito indistintamente, seja qual for o terreno em que houvermos de o praticar. Mas, nem o próprio bem pode excluir a nossa razão, quando, tratando-se da justiça de Deus, pretendemos
contrariá-la.
          O Pai ama seus filhos e abre seu amoroso seio a recebê-los, quando os filhos sabem ir a Ele. Deus apazigua os males da Humanidade; Deus retira a espada da sua justiça de sobre a cabeça dos seus filhos; porém, somente quando da alma destes mesmos filhos brota, santificado, o doce eflúvio da caridade divina, cujos germes foram ali depositados para se desenvolverem e voltarem ao seu seio.
          Se tendes fé, se tendes amor, se tendes caridade, cerrai os olhos, marchai mesmo para o desconhecido e produzireis assombros!
          Se tendes paixões, se tendes vícios, se tendes crimes, sede prudentes. Marchai tímidos, reconhecei o terreno em que pisais, cercai-vos dos meios necessários ao vosso empreendimento e curai obsidiados e obsessores pela graça do Senhor, que reconhece a vossa humildade e o vosso firme desejo de praticar o bem, apesar de serdes pequeninos.
          Meus amigos! não quero fatigar a quem me serve tão passivamente. Que Deus em seu infinito amor permita, por intermédio dos vossos Guias, possais ter bem claro o vosso entendimento para compreenderdes — não os conselhos do mestre, e sim as provas de amizade que vos dá o vosso amigo e irmão.
 
 
          Bendito seja o Senhor, que permite a um pobre Espírito, desejoso de luz e de progresso, vir junto de seus irmãos da Terra expender pálidos pensamentos doutrinários com o fim justo — não de ensinar — mas de permutar com eles os sentimentos que lhe vão na alma, estabelecendo desta sorte o laço da amizade espiritual — prenúncio indubitável do amor a que tendemos.
          Voltando às comunicações apresentadas ao vosso exame, procuremos ainda tirar as conseqüências das premissas formuladas, completando o nosso estudo relativamente à cura das obsessões.
          Ficou estabelecido que aquele que tem a fé, conforme a queria Jesus, isto é, a do grão de mostarda — não precisa de fórmulas e cuidados prescritos pela patogenesia para a reabilitação dos enfermos da alma e do corpo.
          Ficou também estabelecido que aquele que se reconhece fraco espiritualmente; aquele em que se podem apontar erros e culpas — não se deve levar simplesmente pela boa-vontade, esperando da graça do Senhor aquilo que só pode conquistar pelo esforço próprio, no trabalho consecutivo e cotidiano do aperfeiçoamento das suas funções espirituais, por isso que — disse eu —, a admitir-se hipótese contrária, teríamos, não um Deus justo e bom, mas um Deus caprichoso e suscetível dos erros e crimes das suas próprias criaturas.
          Ficou também estabelecido que é uma necessidade o exame patológico do enfermo, por isso que há sempre um estado mórbido a combater — estado mórbido que pode ser a causa da obsessão, mas que também pode ser efeito desta.
          São duas coisas distintas, meus amigos, cada qual requerendo tratamento especial, porquanto no primeiro caso a vossa ação se deve exercer toda sobre o obsidiado, ao passo que no segundo deve ser toda exercida sobre o obsessor.
          O estudo patológico tanto mais necessário e conveniente se torna aos nossos olhos, quanto precisamos conduzir-nos com todo o critério na vida de relação, com todo o bom-senso na vida social — vida de relação, vida social onde as moléstias, mal ou bem, estão classificadas e conhecidas — onde seria um desar para a Doutrina confundir a encefalite, a esplenite, a mielite, o histerismo e a epilepsia com a presença de Espíritos obsessores, aos quais pretendeis levar a luz, o conselho salutar, o restabelecimento, finalmente.
          Bem compreendeis que, na hipótese de uma dessas moléstias, é natural haja sempre influências estranhas, que se aproveitam do estado mórbido, mas não é isso o que realmente se pode chamar obsessão.
          Em tal caso, feito o tratamento com os agentes terapêuticos, tem-se o restabelecimento dos órgãos, a volta da saúde: cessando a causa, cessam os efeitos.
          Entretanto, quando os órgãos são levados ao desequilíbrio pela absorção de fluidos, pela presença constante do Espírito que obsidia, o tratamento deve convergir todo para a causa estranha que se apresenta determinando as desorganizações mentais, a perda da vontade, o aniquilamento do livre-arbítrio.
          É nesse ponto que quase sempre vos encontrais fracos; é nesse trabalho mecânico — por isso que é um trabalho todo de fluidos — que vos encontrais em sérios embaraços, sofrendo, quem sabe, muitas vezes desfalecimentos que vos levariam à descrença, ao abandono da Doutrina de Jesus, se os vossos Guias não vos viessem tocar a consciência, mostrando a improcedência dos vossos raciocínios, que vos impelem a vos julgardes alucinadamente superiores a Deus.
          Assim como para combater uma causa física se antepõe uma força física, assim também para combater uma causa moral é preciso antepor-lhe a força moral.
          Sendo certo que o Espírito obsidiado tem o seu perispírito impregnado, saturado de fluidos maus e perniciosos, deveis, pela potência da vontade, produzir o trabalho que nada tem de material ou mecânico e que consiste em lhe antepor fluidos puros e salutares; e essa pureza, essa salubridade dos fluidos só pode vir da superioridade moral do vosso eu — superioridade moral que vos dá autoridade — a que nenhum Espírito pode resistir, pois que não há em absoluto a homogeneidade que permitiria o exercício de força contrária à Lei, e vós estareis dentro da Lei!
          Eis por que eu disse que convinha toda a prudência ao vos conduzirdes nesses trabalhos espinhosos, porque o homem, que não tem consigo elementos de salvação, não se atira sobre as ondas do oceano revolto que o pode sorver, que o pode tragar no seu seio tempestuoso.
           A boa-vontade pode ser um meio, mas não é tudo.
          O homem que quer destruir a montanha não cruza os braços, limitando-se a dizer a Deus, ou à Natureza, que tem vontade de que a montanha seja destruída: vai buscar a ferramenta, trabalha até a mortificação do corpo, cava a rocha e faz a destruição.
          Tendes boa-vontade de curar, é justo, eu já o disse. Mas a obsessão é uma montanha extraordinária de paixões e sentimentos desordenados, para cuja destruição precisais das ferramentas do amor, das ferramentas da humildade e da verdadeira abnegação.
           Se o vosso Espírito comporta todos esses sentimentos grandes; se a vossa alma pode absorver toda a doutrina emanada do Evangelho de Jesus; por que não o dilatar de todo?
           Por que não amar — por que não ser humilde, desde que sabeis que só o amor e a humildade darão capacidade moral para produzir os assombros obtidos pelos Santos Apóstolos quando, em nome do Divino Mestre, iam de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, pregando a sua doutrina — limpando os corpos e purificando as almas?
          Irmãos! Não vos iludam os caprichos da carne; não vos iludam esses fogos-fátuos das grandezas humanas, que não podem aclarar a ínvia estrada da vossa existência sobre a Terra, nem vos apontar os marcos do gozo que não morre!
          Em cada um de vós vejo, é certo, um pecador; mas, antes, vejo em cada um de vós uma vontade; e, se essa vontade souber exercitar-se, se souber fazer uso do poder, os arruinados castelos de dificuldades serão destruídos para todo o sempre e sobre os seus destroços se levantarão os vossos Espíritos, pecadores de hoje, puros e glorificados por um Deus que é justo!
          Dar pouco já é dar alguma coisa. Se reconheceis no vosso Espírito a fraqueza para os grandes cometimentos da alma, orai, pedi forças a Jesus, e nem de longe acrediteis que vos seja negada a gota de água para os lábios ressequidos — um raio de luz da misericórdia divina ao vosso coração que se humilha, ao vosso Espírito que se abate para se levantar!
          Quando assim fizerdes; quando compreenderdes que ser espírita não é ser homem, mas cristão; quando souberdes dar todo o valor a essa graça que vos é concedida pelo esposamento completo da doutrina que se vos prega; quando, finalmente, vos convencerdes de que éreis náufragos nesse mundo, e que Deus bondosamente fez chegar às vossas mãos a tábua do Evangelho; então podereis ir à casa do doente obsidiado e, dizendo simplesmente — «A paz de Jesus esteja nesta casa» — o doente terá a paz, terá a saúde no corpo e na alma, por Jesus - Cristo, em nome do qual tereis ido praticar o bem, cumprindo a sua lei!
          Meus Irmãos! Meus dedicados Amigos! Não quero fatigar o vosso companheiro.
          O que vos tenho dito basta para compreenderdes o modo por que deveis proceder quando vos achardes em presença de um obsidiado.
          Que Deus aclare o vosso entendimento, que Jesus, por intermédio dos bons Guias, vos dê todas as intuições do bem para a vossa felicidade nesse mundo e no mundo onde vos espero.
          Que assim seja!
 
Allan Kardec
Autor: Allan Kardec (Espírito)
Fonte: A Prece II
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