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Uma bela história!


 

ANTÔNIO!

 

          A generalidade dos homens fixa sua atenção nesses grandes personagens que deixam seu nome na História, pelas suas proezas nos campos de batalha, pela sua sagacidade maquiavélica no terreno político, pelo seu engenho nas belas artes, pelos estudos, descobrimentos e invenções científicas. Todavia, deixam passar desapercebidos inumeráveis seres cuja vida é um heroísmo constante, um sacrifício perpétuo, cuja abnegação irradia resplandecente. .

          Sem querermos, com nossas palavras, contrariar a opinião geral, com nossas ações, agimos, quase sempre, contrariamente à Humanidade, porque ela olha os homens que parecem grandes e nós olhamos, com inexplicável Interesse, os pequeninos da Terra, os que parecem pequeníssimos por sua posição social.

          Quando vimos desfilar as grandes tropas de exércitos vitoriosos que voltavam do campo de batalha, nossos olhos não procuraram os chefes mais renomados, mas os pobres soldados, e dissemos: quantos heróis sem glória!

          Com respeito aos grandes políticos, nos disse certa vez um conhecido homem de Estado: creia, minha amiga, que a alma dos ministérios não são os ministros, mas seus secretários particulares; que no teatro do mundo os primeiros atores, frequentemente, são os que figuram como subalternos.

          Convencidos dessa verdade, sempre procuramos nas classes humildes esses mártires do trabalho e do sofrimento, cujo nome não é consagrado pela fama e em cuja memória não se levantam monumentos de mármore ou de bronze. Mas, que importa o mundo não registrar seus feitos se tudo fica gravado na luz perene de sua eternidade?

          Quem, por exemplo, presta atenção a um desses meninos que vendem jornais pelas ruas? Quem, ao ouvi-los apregoando sua mercadoria, lembra considerar que aquela voz pode ser o eco de um coração magnânimo? Nós, antes de sabermos que o célebre Edison, o inventor do fonógrafo, da lâmpada elétrica, do microsatímetro, que dividiu em dez mil isqueiros uma só luz elétrica, esse gênio mecânico, primeiro do nosso século; antes de sabermos, repetimos, que Edison foi vendedor de jornais em uma estrada de ferro, já olhávamos com certa simpatia os pequenos veiculadores de ideias. Entre eles, encontramos um herói de trabalho, de abnegação e sacrifício.

          Quando morávamos em Madri, tínhamos o costume que têm quase todos os habitantes da Corte: comprar A Correspondência da Espanha. Um garoto de 9 a 10 anos era o encarregado de nos trazer os jornais todas as noites, deixando-os em todos os quartos da casa. Sempre nos alegrávamos em ver aquele rosto risonho, adornado de grandes olhos brilhantes e expressivos.

          Certa manhã, ao entrar em uma capela evangélica, nos surpreendeu ver o pequeno distribuidor, o simpático Antônio, sentado em um banco e escutando, com atenção superior aos seus poucos anos, o discurso do pastor.

          À noite, ao vê-lo, dissemos-lhe: olha! És protestante ou apenas vendes algum jornal luterano?

          - Minha mãe pertence àquela congregação, e eu também - respondeu o pequeno com certa gravidade. Como você sabe, somos irmãos em Jesus Cristo.

          Essa identidade de ideias nos aproximou mais do pequeno Antônio, e sempre lhe fazíamos perguntas pelo prazer de ouvir suas judiciosas respostas.

          Uma noite, em que chovia torrencialmente, Antônio não nos veio trazer A Correspondência na hora do costume. Às dez horas, fecharam a porta da casa, mas, daí a pouco, tendo ouvido chamar à porta do nosso pavimento, saímos para atender e deparamos com Antônio acompanhado do guarda noturno. Recebemos o jornal e não pudemos, pelo menos, deixar de dizer-lhe:

          - Menino, aonde vais com essa noite tão cruel? Não podias trazer o jornal pela manhã?

          Pela manhã eu tenho outras coisas a fazer.

          - Este homem tem muitas obrigações - disse o guarda a rir - já vê se terá quando me obriga a acompanhá-lo, a fim de ir abrindo as portas.

          - E tenho muitas - disse Antônio - e você sabe disso melhor que ninguém.

          - Sim, homem, sim, já o sei. Aqui neste lugar -disse-nos o guarda - encarregou-se de manter uma

criança.

          - A uma criança?

          - Sim senhora, a uma criança.

          - E como foi isso? Conte-me.

          - Muito simples. Certa noite a uns três meses, cerca de meia noite e meia, estava eu perto da casa de Antônio, quando este veio e me disse: "Olha, junto à porta do convento deixaram uma criança que chora".

          Acompanhei-o e, efetivamente, enrolada em um pano preto havia uma menina que contava uns oito dias de idade, e estava muito bem vestida. Antônio tomou-a nos braços e me disse: "Venha comigo à minha casa, pois quero ficar com esta criança". - Estás louco! - disse-lhe - para aumento de família tens tua mãe...

          - Não importa, não importa - insistiu Antônio - venha comigo e o resto corre por minha conta.

          Fomos à sua casa e a mãe de Antônio - que é ajudante de lavadeira - ao ver-nos com a enjeitada que trazíamos, tomou-a nos braços, beijou-a; Antônio se abraçou a ela e soube ajustar tão bem as coisas, que sua mãe ficou com a menina, responsabilizando-se ele pelo pagamento da ama que dela cuidaria com o que ganhava. Por isso, tem de trabalhar tanto, ainda não tem dez anos e já se converteu em pai de família.

          - Vamos, até amanhã, que tenho pressa – disse Antônio saindo com o guarda.

          Se o pequeno jornaleiro nos era simpático, desde aquela noite, sentimos por ele admiração e carinho.

          Na noite seguinte, quando chegou, perguntamos-lhe pela menina e dissemos:

          - Queremos que nos fale com vagar de tudo isso.

          - Bem, amanhã, vá cedo à capela e eu contarei.

          Não faltamos ao encontro, e Antônio já nos esperava lendo em sua Bíblia. Parecia um homenzinho. Perguntamos por sua protegida, e lhe ponderamos sobre a grande obrigação que contraiu.

          - Jeová me protege, porque lê em meu coração - replicou o menino. Parece-me que Jeová pôs Raquel naquele lugar para que eu a recolhesse, porque ao ouvi-la chorar, senti uma pena tão grande quanto quando morreu meu pai, e não fiquei tranquilo até minha mãe achar quem a criasse. Justamente uma nossa vizinha se encarregou dela e, por isso, pago-lhe dois duros todos os meses. Se você visse como está formosa! ...Eu pedi roupas à senhora do pastor e ela me deu muitas coisas; minha mãe lava-lhe os vestidos e sempre Raquel está mais branca que uma pomba. Precisas ver como a menina me conhece! Pobrezinha!  - e o olhar de Antônio irradiava felicidade.

          - Mas terás que trabalhar muito...

          - Que importa! À noite, vendo A Correspondência e pela manhã outros periódicos; depois, vou à casa de um editor para dobrar e separar entregas. Desde que tenho Raquel em casa, tudo vai bem. Vendo o dobro de antes e, à noite, quando me retiro, e à vezes muito tarde, já não tenho medo como acontecia, parecendo-me ver sombras e fantasmas. Parece que me dizem ao ouvido: Jeová está contigo!.... e me rodeia uma luz tão linda! ... vejo meu caminho tão claro! ... Contei à minha mãe e ela ri, respondendo-me que isso é impossível, mas estou persuadido de que é verdade, porque ocorre todas as noites e sem exceção de nenhuma. Estou certo de que não me engano. .

          - Não, meu filho, não te enganas. Às almas boas como a tua, Jeová sempre acompanha. Não duvides disto: Jeová está contigo.

          - Me alegraria - ajuntou Antônio sorrindo – que minha mãe te ouvisse; veria assim que é ela quem se engana, e não eu.

          Tendo aparecido o pastor, dispôs-se a escutar, atentamente, seu discurso.

          Enquanto permanecemos em Madri, continuamos a ver Antônio, admirando cada vez mais a grandeza de sua alma.

          Quem diria - vendo aquele menino correndo pela rua, apregoando sua mercadoria - que era o amparo de um pobre ser abandonado sobre a Terra! Quem diria que aquele menino era um herói por sua abnegação e sua caridade!

          Quem diria - ao vê-lo com sua blusinha azul e seu gorro verde - que a própria irradiação do seu espírito iluminava seu caminho, e a voz do seu guia, indubitavelmente, murmurava em seus ouvidos: "Jeová está contigo"!

          Antônio! Alma boa! Tua lembrança vive em nossa memória, e sempre que vemos um pequeno jornaleiro, nos lembramos de ti e da tua amada Raquel.

          Que ação tão linda! Um filho do trabalho, um pequenino que não teve infância, converter-se em protetor de um ser abandonado no meio da rua.

          Que espírito tão evoluído! Que instintos tão generosos! Que abnegação tão pura!

          Bendito sejas Antônio! Bendito sejas!

Autor: Amália Domingo Soler
Fonte: Palavras do Alvorecer
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