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Vade Mecum Espírita

Quando a caridade se junta à felicidade.


                                                                                                      24
                                                                                        O MENINO JESUS

          Um dos quadros mais belos que a Natureza apresenta ao homem que pensa: uma criança nos braços de sua mãezinha.
          Nunca esquecerei um pequenino que contará dois anos: sua cabecinha está coberta por dourados e sedosos cabelos, seu rosto é muito simpático, e seu olhar tão expressivo que não vi outros olhos que revelem a felicidade como os olhinhos desta criança.
          Quer muito bem à sua mãe e, uma tarde, diante de mim, conseguiu sentar-se em seu regaço, todo encolhidinho, reclinando a cabeça sobre o peito daquela que o carregou em suas entranhas.
          Suas faces pálidas adquiriram a suave cor das rosas; em sua boquinha se desenhou o mais doce sorriso e seus olhos irradiaram um prazer imenso.
          Sua jovem mãe olhava-o sorrindo, como só as mães sabem sorrir.
          Eu que, como o nobre russo do conto, vou pelo mundo à procura de um homem feliz, senti-me tão atraída pela expressividade daquele quadro, que não podia dele desviar meus olhos: queria fotografar em minha mente aquele admirável grupo, em especial o rosto do menino, expressivo e sorridente sob todos os aspectos.
          O menino observou que eu olhava fixamente: contente e risonho, escondia sua ruiva cabecinha no regaço maternal, e logo voltava a olhar-me como dizendo, com seu sorriso:
          "Sim, sim, sou feliz; a felicidade existe nó Terra". E repetia suas carícias, mas tão graciosamente, que sua mãe o cobria de beijos, ao mesmo tempo que murmurava:
          - Não vês quão belo é meu filho?
          - Oh sim, é muito belo! Eis aqui um menino-Jesus mais belo do que todos os que vi nos quadros dos pintores místicos. Grande é a arte, mas a Natureza é maior ainda.
          E continuei olhando a criança para recordar, em minhas horas de amargo desencanto, aquele quadro encantador da felicidade humana, reflexo, sem dúvida, da felicidade inefável que se deve fruir em outros mundos melhores.
          No olhar daquele pequerrucho, não havia somente essa inocência infantil, essa alegria simples peculiar de quase todas as crianças. Não. Havia muito mais: uma expressão inteligente, inexplicável.
          E como o pensamento voa com mais rapidez do que todas as águias, e do que todas as ondas sonoras ou luminosas, aquele menino-Jesus trouxe, à minha mente, a recordação de uma história que não apreciei, em todo o seu valor, antes de conhecer o Espiritismo. Hoje, que comungo esta consoladora doutrina, a recordação daquele fato me comove, e vou contá-la, crendo ser útil ensinamento.
          Conheci Aurora Montejo, jovem de bons sentimentos, mas fechada no cárcere estreito do fanatismo religioso, como se toda a sua família se compusesse de monjas e de frades, como se diz vulgarmente.
          Casaram-na com um primo, mais para somar fortunas do que para enlaçar corações; e um menino veio alegrar, mais tarde, o lar triste e solitário.
          Aurora enlouqueceu de alegria, e rodeou seu filho das mais ternas atenções. Não obstante, seus amorosos cuidados foram inúteis: antes de completar dois anos, o pequenino deixou a Terra e Aurora acreditou morrer de tristeza.
          - Meu Deus! - exclamava -. Que vou fazer, que vai ser de mim sem o meu menino-Jesus... !
          O pequerrucho era tão precioso, tão humilde e tão bom que toda a família lhe dava o nome de Redentor. Vendo Aurora desesperada, um seu irmão lhe disse:
          - Queres encontrar consolo?
          - Diga-me o que devo fazer porque não posso viver assim: até duvido da misericórdia de Deus.
          - Ouça, teu menino-Jesus foi para o céu, mas a imagem do menino perdido se venera em nossa igreja. Encarrega-te de cuidar de um altar do menino-Jesus, e verás como a tua alma se tranquilizará. Teu filho ficará muito feliz contigo e, em sua glória, intercederá com nosso divino Pai, e serás ditosa por sua mediação. Aurora se encarregou, em seguida, de cuidar de um altar do menino perdido, preciosa imagem de rosto encantador e ruiva cabeleira, que vestiu com uma túnica de seda de prata bordada, com pérolas e diamantes, fazendo construir-lhe uma capela, em cujo altar, diariamente, se celebravam missas, que Aurora ouvia com místico recolhimento.
          Como era imensamente rica, obteve do Papa uma bênção apostólica, e a concessão de quarenta dias de indulgência a todos os fiéis que, diante do altar do menino perdido, rezassem o rosário, às dezoito horas. Aurora dirigia a oração; mas, apesar de toda a sua devoção, quando via um menino da idade do seu, se entristecia e chorava em profundo desconsolo.
          Um dia Aurora veio visitar-me e disse-me:
          Ah, Amália! Acho que vou enlouquecer. Há algumas noites que, ao deitar-me, ouço uma voz que murmura em meu ouvido: "Procura o menino-Jesus".
          Quando entro na capela, por mais procure entregar-me à oração, a mesma voz me perturba dizendo:
          "Não é este o caminho; procure o menino-Jesus em outra parte."
          Tendo me referido a isso ao meu confessor, disse-me que estou sendo perseguida pelos maus espíritos, os quais só poderei afugentar pela penitência. E aqui me tens ignorante do que se passa. A verdade é que, desde a morte de meu filho, não sei o que é ter sossego. Ao ver a imagem rígida e fria do menino-Jesus, recordo meu filho, que era tão carinhoso e brincalhão, e as lágrimas correm pela minha face.
          Passados alguns dias, Aurora voltou a visitar-me, pedindo-me que a acompanhasse, pois deveria ir, por encargo do seu confessor, levar uma coroa à Virgem das Angústias. Acedi prazerosamente. Andamos longo tempo antes de subirmos à carruagem, chegando, por fim, a um desses templos humildes e solitários, que são os mais agradáveis àqueles que vão ao templo para orar.
          O pároco não estava, e o sacristão recebeu o presente. Ao sair da igreja, me chamou a atenção um homem de idade mediana que estava podando um roseiral de trepadeiras: seus olhos avermelhados demonstravam que havia chorado muito, e, em seus menores movimentos, se notava o desfalecimento da dor.
          - O que tem esse infeliz? - perguntei ao sacristão.
          - O que queres que ele tenha senhora, senão penas e misérias. É meu irmão e perdeu a esposa, que era boa mulher, deixando-lhe cinco filhos, cabendo todos debaixo de uma cadeira. Ele está sem trabalho, e como a época é má e não posso ajudá-lo muito, o pobre não sabe como fazer para seguir adiante.
          Aurora, ouvindo falar de crianças, prestou atenção. De pronto a vi empalidecer e estremecer, para depois, olhando por todos os lados como se estivesse assustada, me perguntar em voz baixa:
          - Ouviste?
          - Sim, é uma história triste.
          Não é isso; ouviste o que acabam de me dizer?
          - Não sei do que me falas; refiro-me ao sacristão.
          - Pois bem; enquanto ele falava disseram-me ao ouvido: "Aí está o menino-Jesus, corre em sua procura". Vou ficar louca; quando ouço essa voz não sei o que se passa comigo.
          - Tranquiliza-te e faça uma boa obra, deixando uma esmola a esse infeliz, para que dê pão aos seus filhos.
          Aurora se aproximou do irmão do sacristão e lhe disse:
          - Você mora muito longe?
          - Não, senhora; aqui na esquina.
          - Pois acompanhe-me até sua casa, que quero ver os seus filhos.
          O pobre homem suspirou angustiado, e começou a andar. Chegamos a uma casinha humilde, em cuja porta apareceram cinco crianças, o maior de sete anos, e o menor de dois: três meninas de seis, cinco e quatro anos, brincavam fazendo comidinhas, enquanto o maior recortava gravuras, e o pequenino se entretinha desmontando um cavalo de pau e destroçando um carro de papelão.
          Nada mais linda do que esta última criatura. Parecia um desses anjos que rodeiam a Virgem no ministério da Concepção. Olhos azuis, cabelos dourados, rosto de neve, faces rosadas e lábios vermelhos como o rubi.
          À chegada do pai, abraçou-lhe aos joelhos, o que bastou para que Aurora prorrompesse em pranto copioso. Vendo-a, o pequenino, como se a conhecesse,   pegou-lhe o vestido, enquanto lhe dizia com acento carinhoso:
          "Por que choras? Pobrezinha! Não chores, porque eu te quero bem".
          Aurora tomou-o em seus braços e, enchendo-o de lágrimas e de beijos, perguntou como se chamava.
          - Jesus - respondeu o pequenino.
          - Valha-me Jesus! - replicou Aurora. E, deixando-se cair em uma cadeira, ficou muito tempo pensativa, com o menino nos braços, que ria alegremente, colocando as mãos sob a peça de pele que Aurora vestia.
          As demais crianças a rodearam, olhando-a com inocente curiosidade. Eu contemplava aquele quadro com inefável emoção.
          Aurora, que acabava de tomar sua resolução levantou a cabeça e, dirigindo-se ao irmão do sacristão, disse-lhe:
           - Você muito perdeu com a partida da mãe dos seus filhos, mas a providência de Deus é inesgotável. Perdi meu único filho e, desde que morreu, vivo em angustiante solidão. A voz deste menino me fez sentir o que não havia sentido desde que perdi meu filho. Deixe que ele ocupe, em meus braços, o lugar que o anjo da minha vida deixou vazio, e eu lhe prometo educar seus filhos e ajudá-lo para que sua carga não seja tão penosa.
          O pobre homem ficou olhando-a, murmurando tristemente:
          - Exiges muito de mim, senhora. Desfazer-se de um filho e de um filho como meu Jesus, é sacrifício superior às minhas forças; mas sou tão pobre e quero tanto bem aos meus filhos que, por seu amor, sofrerei até o martírio. Disponha, senhora, e eu a obedecerei, bendizendo sua caridade.
          Aurora não quis separar-se do menino; deixou algum dinheiro ao pai atribulado, dando-lhe várias instruções e subimos na carruagem com Jesus, que confiava que o autor dos seus dias mais tarde iria vê-lo.
          O pequenino, com o movimento da carruagem, adormeceu nos braços de Aurora.
          - Estou atordoada - dizia -, não posso descrever-te o que se passa comigo. Meu confessor assegura que estou possuída pelos maus espíritos, e esta é a causa das vozes que ouço. Sem dúvida, a essas vozes devo o bem que acabo de fazer e as doces emoções que experimentei. Enquanto abraçava este menino, pareceu-me que me davam um beijo no rosto, ouvindo estas consoladoras palavras: "Bendita sejas, minha mãe!" Se estas emoções e estes sentimentos são produzidos pelos maus espíritos, devo confessar que não os produzem tão ternos e agradáveis, os bons espíritos. Este menino, tão lindo corno o meu, dever-me-á sua felicidade. Sempre olhei as riquezas com indiferença, mas, hoje, alegro-me em ser rica para cumular este menino de bens.
          - E se amanhã tiveres filho?
          - De acordo com os médicos, não voltarei a ser mãe, e este menino lucrará com isso. Diga meu confessor o que quiser, mas se desfruta muito mais fazendo o bem do que levantando templos e vestindo imagens.
          Desde aquele dia, Aurora renasceu para a felicidade. Sua casa, até então triste e solitária e cheia de Cristos, de Dolorosas e de santos, foi albergue risonho de cinco crianças, porque o pequeno Jesus havia imposto a lei do carinho e, sem seus irmãos, não queria ficar com Aurora. Seu pai foi nomeado mordomo, único meio para que, ao pequeno Jesus, nada faltasse e fosse feliz.
          Aurora não teve do que se arrepender pela sua boa obra: viveu e vive ainda amada pela família que tirou da miséria.
          Quase ao mesmo tempo que eu, conheceu e estudou o Espiritismo, vindo a saber então que devia sua salvação ao seu filho, pois era sua a voz que a separou do templo e a levou à caridade verdadeira.
          No dia em que a voz dos espíritos ressoe na Terra, compreender-se-á que não há nada melhor do que amparar os órfãos.

Autor: Amalia Domingos Soler
Fonte: Palavras do Alvorecer
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